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GERAL
Atingidos têm mais risco de sofrer problemas mentais
Pesquisador da UFMG entende que atenção com saúde de vítimas deve ser priorizada 11/02/2019



 
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Consequência. Afastamento das pessoas dos povoados que elas tinham laços potencializa risco de depressão e suicídio, segundo estudo
PUBLICADO EM 11/02/19 - 03h00

As perdas humanas e materiais são visíveis e, até por isso, são o foco nas ações de reparação de danos. Mas, passados três anos do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, na região Central de Minas Gerais, uma parcela dos atingidos pelo desastre sofre com dores físicas e na alma que poderiam ter sido evitadas ou amenizadas, segundo especialistas. Depressão, ansiedade, doenças na pele, no coração e em várias outras partes do corpo são reflexo de um sofrimento silencioso, com uma dimensão não totalmente possível de ser medida em pesquisas.

“O que a gente queria ver é uma estratificação prévia por grupos de risco para se ter cada tipo de doença. Dá para saber que pessoas mais próximas da barragem têm maior risco de sofrer, por exemplo, com doenças mentais. Isso teria que ser dimensionado para implantação de um plano de ação para ajudar essas pessoas, com aumento no número de profissionais nos postos de saúde. Em Mariana, isso aconteceu tarde demais na minha opinião”, avalia o médico psiquiatra Frederico Garcia, que coordenou a “Pesquisa sobre Saúde Mental das Famílias Atingidas pelo Rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana”, feita na Universidade Federal de Minas Gerais.

Mais vulneráveis

O estudo mostrou que o risco de suicídio rondava 16% da população atingida pelo desastre. “Algumas questões potencializaram esse problema, como o afastamento dessas pessoas dos povoados com que tinham laços, a demora para reconstrução da vila e a terceirização do cuidado psicólogo posterior, que foi feito pela Fundação Renova. Os pacientes não tinham tanta segurança de se abrirem com profissionais contratados pela fundação”, afirma.

Segundo o prefeito de Mariana, Duarte Eustáquio Gonçalves Júnior, o impacto foi enorme. “Nossa demanda por saúde na cidade cresceu 19%, porque 23% da população que tinha plano de saúde deixou de ter condições de pagar, por causa do desemprego que se instalou na cidade. Já a procura por assistência social, que inclui ações como a distribuição de cesta básica e medidas de inclusão, cresceu 13% em Mariana”, explica o prefeito.

O quadro é visível pelas ruas da cidade, segundo o integrante da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos pela Barragem (MAB), Pablo Dias. “Aumentou o nível de depressão, alcoolismo e até violência doméstica na cidade. São situações não dimensionadas, mas que são provenientes do crime ambiental”, afirma.

Doenças

Pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostrou que, assim como em Mariana, Brumadinho tem risco de sofrer com proliferação de doenças. Desde 2015, por exemplo, Mariana teve 48 casos de febre amarela e 999 de esquistossomose, segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG). A pasta está até buscando alternativas de vacinação contra febre amarela em Brumadinho para reduzir os riscos. O estudo ainda aponta o risco de o sistema de saúde na cidade ficar comprometido devido à necessidade de fechamento dos postos de saúde e a dificuldade de abastecer o estoque de medicamentos com as estradas obstruídas.

Transtornos

Pesquisa. Segundo levantamento da UFMG, 28,9% dos atingidos em Mariana sofreram com depressão; 32%, com transtorno de ansiedade generalizada; e 13%, com estresse pós-traumático.

 

Doação não é compensação

A Vale tem ofertado uma doação de R$ 100 mil aos parentes de mortos e desaparecidos no desastre da barragem I da mina de Córrego do Feijão, em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte. O valor, no entanto, não poderá ser descontado de futuras indenizações acordadas com as vítimas. Uma situação diferente da que ocorre em Mariana, segundo o procurador do Trabalho, Geraldo Emediato de Souza.

“Ela (a Vale) está chamando de doação porque não é uma compensação. Mas essa conduta da Vale tem que ser acompanhada porque, no caso da Samarco, foi dada uma ajuda emergencial até que os atingidos se estabelecessem, e, depois, a empresa pediu que o valor fosse descontado das indenizações. Ela alega que não é o Estado e que, por isso, não tem obrigação de prestar assistência. Isso está na Justiça ainda, mas temos que avaliar se, mais tarde, a Vale vai fazer o mesmo”, afirma Souza.

Outra situação que coloca em xeque a força de acordos firmados com as empresas é a decisão da Fundação Renova de não pagar os gastos extraordinários aos municípios que entraram com ação judicial contra a Samarco e a Renova na Inglaterra.

“O valor seria para custear os gastos imediatos no atendimento aos atingidos. A fundação já tinha acordado que pagaria o valor, mas, quando descobriu que 24 cidades tinham entrado na Justiça no Reino Unido contra ela, atrelou o pagamento ao fim da ação”, afirma a advogada correspondente no Brasil do escritório responsável pelo caso, Viviane Macedo Garcia. A Renova teria que pagar R$ 53 milhões para 39 municípios. Até o momento, 19 cidades receberam o valor combinado.

Outro lado

Em nota, a Renova disse que “não reconhece como legítimas as ações que tratam dos danos do desastre ajuizadas fora da jurisdição brasileira”. Ainda segundo a fundação, o acordo define a 12ª Vara Federal como a competente para julgar demandas sobre o assunto.

 

Minientrevista

André de Freitas

Diretor de programas da Fundação Renova

Todas as fontes ouvidas pela reportagem falaram que uma das questões que pode ter atrasado o processo de ressarcimento em Mariana foi a criação da Fundação Renova. O que o senhor acha disso? A fundação de fato travou o processo?

Não. Quando a gente olha os modelos tradicionais que foram usados historicamente em outros desastres, como o de Cubatão, demoram décadas para ter o primeiro pagamento. Não dá para dizer que o trabalho da fundação demorou mais do que os processos históricos.

Outra crítica que ouvi muito foi em relação à participação de representantes das empresas no conselho da Renova. Como é hoje a participação das empresas na fundação?

O conselho curador, que é onde as empresas mantenedoras têm representantes, é só uma das instâncias. Mas temos também representantes das comunidades. O sistema de governança é muito complexo.

Os atingidos criticam muito o fato de estarem aguardando por três anos para serem indenizados e reassentados. A que a fundação atribui essa demora?

É muito natural essa ansiedade. Mas não podemos falar que o processo de reparação está lento. Tem bastante resultado entregue. As indenizações pagas somam mais de R$ 1,3 bilhão. A água já pode ser consumida. Já tem muito trabalho feito. E, na parte do reassentamento, o que nós estamos fazendo é o correto e inédito no mundo também. Quando fala em reassentamento, tem padrão de conjunto habitacional. Mas lá, em Mariana, o atingido senta com o arquiteto e fala como quer que seja a casa dele. E cada casa é uma casa diferente, o que gera mais tempo de execução. A nossa agenda é de reparação integral.

 


 

 

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